MUDE em obras nos próximos quatro anos

MUDEQuatro anos após a instalação na antiga sede do BNU, um edifício de 15.000 m2 e oito pisos que ocupa todo um quarteirão da Baixa, com entrada principal pela Rua Augusta, o MUDE – Museu do Design e da Moda concentra-se no que vão ser os próximos quatro anos.

«Vai ser sobretudo fazer obras de infra-estrutura, porque só estamos a ocupar metade do espaço, na melhor das hipóteses. Para desenvolver o nosso projecto de forma mais global, precisamos de coisas tão básicas como elevadores, que neste momento não existem», diz Bárbara Coutinho, a historiadora de arte que dirige o Museu do Design e da Moda desde a sua criação.

Quando a equipa do MUDE visitou a antiga sede do Banco Nacional Ultramarino (BNU), então ainda propriedade da Caixa Geral de Depósitos (CGD), com António Costa, em Setembro de 2007, deparou-se com um edifício que fora esplendoroso, com projecto de arquitectura de Tertuliano Marques e um segundo de Cristino da Silva, mas que, entretanto, passara pelo início de uma demolição que fora milagrosamente suspensa.

A exposição recente que o MUDE apresentou ‘Nacional e Ultramarino. BNU: A arquitectura como imagem de poder’ mostrou parte dessa história recente esquecida.

Logo desde o início, o programa de instalação do MUDE passou por «estudar e valorizar esse património importantíssimo deste edifício que foi a sede do banco que emitia moeda para as colónias, assumindo conscientemente a ruína», diz Bárbara Coutinho.

A exposição permanente, no piso 0, e as mais de 25 exposições temporárias, instalaram-se nesta espécie de estaleiro de demolição. O projecto agora apresentado, feito por uma equipa da Câmara de Lisboa (entidade que em 2010 adquiriu o edifício à CGD tornando-o património municipal) dirigida pelo arquitecto Luís Saraiva, traduz o conceito de intervir respeitando o passado. «O momento de fazer tábua rasa do património e de criar museus emblemáticos nas cidades, como os de Gehry ou Zaha Hadid, já passou. Vamos conviver com este passado, que estivemos a estudar afincadamente nos últimos quatro anos, e projectá-lo para o futuro. Queremos valorizar o património, mas não congelá-lo, nem fazer uma apropriação falsa», salienta Bárbara Coutinho, defendendo que, por isso, irá ser feita uma intervenção «em filigrana». «Muitas pessoas vão dizer que não vamos mudar nada, mas há aqui uma sofisticação técnica muito grande para conseguir fazer obra. É uma intervenção pensada com delicadeza, não há um gesto de radicalidade. Respeitando a legislação vamos manter a estética».

Segundo o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, as obras ficarão abaixo do tecto de 10 milhões de euros, em que se vão procurar «soluções low budget», de acordo com Bárbara Coutinho.

Um restaurante com vista

As obras vão «responder à nova legislação de segurança, nomeadamente no que diz respeito a estruturas anti-sismo e antifogo, criar saídas de emergência e vão ser reforçadas paredes e toda a estrutura, garantindo que se possa utilizar o edifício na íntegra». Vai ser recriada a rede de esgotos e de electricidade para os pisos superiores, neste momento completamente desactivados. Quando a obra acabar, no sétimo andar voltará a funcionar um restaurante/cafetaria com esplanada, servido por uma vista maravilhosa, «e onde se deverá valorizar a comida portuguesa e também o food design». A exposição permanente que agora está no piso 0 passará para o piso 3, que sofrerá uma abertura numa zona central rompendo para o piso 4 de forma a duplicar o pé direito. No piso 4 ficam as reservas de design da colecção Francisco Capelo , às quais serão feitas visitas guiadas. O piso 0 verá funções antigas serem retomadas «quando este edifício era a sede do BNU era aqui a grande entrada do público e os serviços de atendimento estavam atrás do grande balcão central. Voltará a ter essa função». Terá também uma loja de design e livraria, explorada directamente pelo museu, e uma zona de estar. No piso -1, onde eram os antigos cofres, ficarão também as reservas do museu. No auditório, actualmente usado para conferências e eventos, a cafetaria deverá voltar a funcionar.

O projecto, apresentado na passada terça-feira, dia de aniversário do MUDE, por António Costa, deverá estar acabado no final de Junho, indo depois para aprovação em reunião de Câmara. «Mas sentimos que no aniversário devíamos comunicar ao público este trabalho invisível mas muito importante que temos feito».

Até porque, diz Bárbara Coutinho, os próximos quatro anos serão também dedicados a estratégias de inclusão de público, levando o projecto Made in Portugal (que apresenta projectos de excelência de design português e produzidos em Portugal) para a rua. «É uma espécie de MUDE em movimento. Vamos ter por exemplo as pessoas a experimentar no Tejo os caiaques Nelo ou as bicicletas da MyBike e fazer projectos com a VoArte».

Os próximos anos serão também de trabalhar a colecção, apresentar exposições novas, há o projecto de mostrar o trabalho do luso-francês André Saraiva, e de receber doações de espólios de design. Cereja no topo do bolo: a Scala Publishing, editora especializada em património arquitectónico, irá lançar brevemente um livro sobre o conceito museográfico do MUDE.